Blog Intenção Crítica

Por Alexandre Cimatti no Blog Intenção Crítica. Super escrita sobre meu trabalho. Obrigada!
“… Misturando só o que vale a pena de tudo que pode fazer parte de um objeto musical, faz qualquer ouvido, antes maltratado pelo que a grande mídia teima em nos fazer engolir, entrar no modo “sou feliz porque existo” tamanho o capricho em cada detalhe, por menor que seja, que a moça e seus influentes companheiros põem no produto final: o CD, se é que se pode chamá-lo assim, melhor seria chamá-lo obra prima.”

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Confira o texto na íntegra:
PRA OUVIR E SENTIR E REFLETIR
Juliana Cortes  é nome do bom vento que vem das bandas do Sul, aquele que traz frescor às noites quentes e movimento brando às águas mansas.
Misturando só o que vale a pena de tudo que pode fazer parte de um objeto musical, faz qualquer ouvido, antes maltratado pelo que a grande mídia teima em nos fazer engolir, entrar no modo “sou feliz porque existo” tamanho o capricho em cada detalhe, por menor que seja, que a moça e seus influentes companheiros põem no produto final: o CD, se é que se pode chamá-lo assim, melhor seria chamá-lo obra prima.
A própria Juliana diz que o gênero das canções que faz e interpreta se encaixa em Word Music ou Jazz, mas isso é pura conveniência, pois é música e ponto, nela cabendo o mesmo Jazz, a milonga, um quezinho de Rock e Pop, os sotaques tantos da música do Brasil e tantas outras modas que deixo pro leitor/ouvinte identificar: a surpresa ainda é a melhor forma de sedução.
A curitibana gravou seu primeiro disco em 2013 (Invento), mas, segundo ela mesma, desde menina já estava no meio musical: cantando em corais, participando da gravação de discos infantis, se enturmando com a galera da pesada no ramo; tanto que acabou cruzando com Vitor Ramil, um dos expoentes da música brasileira que vem sendo feita no Sul do país desde a virada do milênio; aliás, “Longe das Capitais“, o Sul nos tem presenteado com música pra lá de refinada há um bom tempo, e o sabor só tem melhorado com o passar dos tempos.
O encontro com Vitor Ramil (além do encontro com Moska, Dante Ozzeti, entre outros) só se deu no segundo trabalho (Gris – 2016), mas, por conta, já estudava sua “Estética do frio” para compôr a estrutura de suas canções e orientar sua carreira, valendo até uma parceria em “Gris” com poema de Paulo Leminski musicado por Ramil.
A letra, aliás, é também ponto fortíssimo nas canções de ambos os discos, impossível eleger o que, no trabalho de Juliana, se destacaria mais. Enquanto a composição harmônica e rítmica sossega, tranquiliza faz do ouvinte realmente ouvinte, a letra o (e)leva pro lugar onde a beleza da lógica e da novidade residem. Prestar atenção no que diz o texto das canções é iniciar reflexões e transcendências, às vezes lado a lado, às vezes não.
“Filosofando” (Invento – 2013), por exemplo, traz, na letra, a beleza que transcende e a lógica que ilumina, contando de um passarinho que, observado, deixa o eu-lírico extasiado com a epifania que lhe desperta: sem ter nada de seu, tem o céu azul onde voa e o  verdejar das árvores em que pousa, tendo assim “muito mais” que aquele que canta. Pra parar e pensar.
Agora, em 2016, sua voz levemente grave e agradavelmente doce está em “Gris”, segundo álbum de Juliana Cortes, com parcerias que deixariam qualquer bom ouvinte interessado em conhecer.
Entre elas, “O Mal”, com Arrigo Barnabé, que também participou da gravação, foi escolhida para o primeiro clipe do disco. A canção, lenta e ligeiramente suingada, diz de alguém que, pela primeira vez, encontra o mal em si, como se agisse criminosamente, sem nunca ter pensado nisso, por obrigação da realidade que se lhe apresenta. No vídeo clipe, diferentemente da faixa no álbum, a letra não se repete, é cantada apenas uma vez; porém dá algumas dicas de significados que a audição não nos ajuda a decifrar. Junto com a introdução da música, há, na tela, dois grandes olhos que se abrem repentinamente e que se mantêm arregalados por alguns segundos, quando é feito um corte para um quarto sombrio e simples, passando, a seguir, para tons de vermelho e marrom. Interessante é que no quarto há uma garotinha que desperta e se levanta (logo depois de desaparecerem aqueles grandes olhos da introdução) e esta é a Dorothy  de “O Mágico de Oz” (1939); quando a garotinha sai do quaro onde despertara, a cena muda para preto e branco, ela continua caminhando, e muda novamente par os tons de marrom e vermelho, ela se assusta com uma TV ligada à altura do chão e para pra olhar como se não soubesse do que se tratava. O clipe segue misturando elementos míticos e de fantasia, algumas apenas ilustrando o dito na letra, até que, no final, a menina Dorothy  é colocada em uma queda livre como aquela da famosa Alice no “País das Maravilhas“. Entre anjos caídos, Dorothys despertas enfim e Alices em novo mundo, pode-se dizer, com a ajuda do vídeo, que esse mal era latente e necessário pra continuar a jornada heroica.
A parceria com Ramil e Leminski também é imperdível. “O Velho Leon e Natália em Coyoacán” pode referir-se a Leon Trótzki em sua passagem pelo México, onde foi assassinado por espiões russos, após ter fugido da perseguição de Stalin, usurpador do poder quando da morte de Lenin, que preferia como sucessor o camarada morto em Coyoacán. Assim pode ser entendida, além de com as marcas presentes já no título da canção, também por causa das palavras do poema, que contam de um dia que nunca mais se repetiria como um que já houvera em Petrogrado antes, cidade tomada pela revolução bolchevique em 1917.
Saia Azul” (Dante Ozzetti/Chico Cesar), diz de alguém que tem em uma saia comprada por alguém que deixava as Minas Gerais pra não mais voltar e que se contenta em demasiado ao usar a tal saia comprada ao deixar a terra natal.
Mas tiro certeiro foi mesmo com “Indo ao pampa” (Vitor Ramil), equilibrando suavidade e gravidade tão bem que tem-se a impressão de flutuar ao ouvi-la; isso sem falar nas genialidades usadas no texto, genialidades como: “Quase ano 2000, / mas de repente avanço a 1838 (…) /  porque os homens por ali estão pra lá dos anos 2000”, ao falar de alguém que retorna os pampas do Rio Grande do Sul; um pouco mais adiante, seguindo o refrão “eu indo ao pampa, o pampa indo em mim”, representação certeira do que é a felicitação de reencontrar algo que vive dentro mesmo que esse algo esteja demasiado longe.
Se você ainda não conhece Juliana Cortes, não se demore em conferir suas obras primas: é prazer garantido; mas não se esqueça, só fará efeito se ouvir sentado, tranquilo e com tempo: pra pensar e sentir.

 

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Por lumendesign

3 Comments

  • Gabriela Groza

    03 jun 2016 / Reply

    Lindoooo!!! E que música maravilhosa!!! Quando vem pra Cuiabá?

    bjs bjs bjs

    • Tiberiu Calin Tasca

      12 jun 2016 / Reply

      Adorei o clipe, estão de parabéns!!

      • Daniel Cimpean

        12 jun 2016 Reply

        Que demais!!!

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