Entre a estética do frio e o calor do POP

Juliana Cortes caminha entre a estética do frio e o calor do pop

Trocando em Miúdos: Entre a “Estética do Frio” e o calor do pop, Juliana Cortes lança segundo álbum que reafirma seu talento. Cantora é a “Prata da Casa” desta semana

Quando, em 2003, Vitor Ramil apresentou em Genebra o texto A Estética do Frio, o músico pensava a partir do Rio Grande do Sul, de suas características únicas e que conversavam com os países fronteiriços, Argentina e Uruguai. Mas o que isso teria a ver com Curitiba?

De certo que, excetuando-se o clima mais ameno e a colonização predominantemente europeia, pouca coisa aproxima Curitiba de Porto Alegre, o Paraná do Rio Grande do Sul. Contudo, em alguma medida, esses recortes geográficos do Brasil têm se aproximado culturalmente.

Já em seu primeiro disco, Invento (2014), Juliana Cortes flertou com o trabalho de Vitor. Além de resgatar “Indo ao Pampa”, do disco Ramilonga (1997), e “O Velho Leon e Natália em Coyoacán”, poema de Leminski musicado pelo gaúcho em Tambong (2000), ela contou com a participação dele nesta mesma canção. Aliás, Invento foi um disco que era fortemente inspirado na forma em que Ramil organiza seus arranjos.

Juliana Cortes mostrou seu cartão de visitas já no primeiro trabalho, emprestando sua voz firme e a delicadeza com que encaixa o tom em cada canção para dar nova cara a canções como “Filosofando”, do ator e músico Alexandre Nero.

Pouco mais de dois anos depois, Juliana puxa a cadeira, liga o microfone e mergulha com força maior nesta maneira particular de fazer música ao sul do mundo. Gris, seu segundo disco, lançado no último dia 20, é uma enorme força musical para o cenário curitibano e paranaense, em que a cantora navega com naturalidade pelo indizível da música, resgatando nuances subtropicalistas que abraçam o calor desse mundo chamado Brasil.

Gris é uma enorme força musical para o cenário curitibano e paranaense, em que a cantora navega com naturalidade pelo indizível da música, resgatando nuances subtropicalistas.

Juliana traz consigo três convidados em Gris: Antonio Loureiro, Arrigo Barnabé e Paulinho Moska, além de interpretar canções de Estrela Leminski e do uruguaio Dany López, que tem longo histórico na música e já colaborou com outros artista brasileiros, como o gaúcho Marcelo Delacroix. Completando esse elenco recheado, Juliana Cortes ganhou “Uma Carta Uma Brasa Através”, poesia de Leminski musicada por Vitor Ramil. É uma extensão da parceria dos dois já realizada em Invento. A canção é, ainda, um retorno de Vitor ao trabalho de Paulo Leminski.

Há um cuidado estético na montagem dos arranjos e das melodias de Gris, uma grande evolução em comparação ao primeiro trabalho. Aqui, a cantora ainda deixa a impressão de maior domínio do que deseja transmitir, fazendo do álbum totalmente sua imagem e semelhança, não deixando qualquer espaço a possíveis deslizes.

Em parte isso pode ser resultado de pequenos (grandes!) detalhes. Cortes rodou nos últimos tempos buscando remontar sua essência enquanto artista. São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevidéu são apenas algumas das geografias que passaram a saltitar em notas na voz da cantora. Há, também, a mão de Dante Ozzetti na produção de Gris, e isso trouxe um novo nível à cantora. Dante já trabalhou com grandes nomes da música brasileira, como Zélia Duncan, Zizi Possi, João Bosco e Tetê Espíndola.

Desta forma, seu novo disco soa um pouco mais pop que o anterior, porém, ainda mais aprofundado na “Estética do Frio”. Mesmo a milonga composta por Ozzetti e gravada por Juliana, “Outras Milongas”, é muito mais urbana e menos campestre, mais acelerada e elaborada, uma nova e festiva perspectiva para o encerramento de um trabalho, que mais deixa a sensação de necessidade em ser ouvido novamente do que a vontade de seguir em frente. Um belo disco para aquecer esta fria Curitiba.

http://www.aescotilha.com.br/musica/prata-da-casa/juliana-cortes-caminha-entre-a-estetica-do-frio-calor-do-pop/

 

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Por lumendesign

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